Um filho chamado SabinDonas de um dos principais laboratórios de análises clínicas do Brasil, Janete Vaz e Sandra Costa criaram um negócio que virou modelo de gestão no país.
Na estrada entre Anápolis e Brasília, quando a família voltava de um feriado, acendeu a faísca que mudou a visão da empresária Janete Vaz, 55 anos. Com o marido na direção, Janete aproveitou para ajudar a filha Raquel, que estava no banco de trás do carro, a estudar para faculdade de administração: abriu um livro de TGA (técnicas gerais de administração) e começou a ler em voz alta. “Eu me identifiquei imediatamente e pensei: não acredito que fazemos tudo isso sem nunca termos tido contato com as teorias de gestão”, relembra Janete. “Na época, não sabíamos nem o que era a missão de uma empresa.”
Era o início de 2000 e, nos dois anos seguintes, a diretora administrativa do Laboratório Sabin se aplicou no MBA do Instituto Nacional de Pós-Graduação, em Brasília. Chegava ao trabalho empolgada, dividindo tudo o que havia aprendido com os gestores do negócio e com a sócia, a direção técnica Sandra Soares Costa, 58 anos. Foi no início dos anos 80 que as duas colegas, ambas formada em Farmácia e Bioquímica – Sandra, pela Universidade Federal de Goiás -, deixaram seu trabalho no laboratório Planalto e resolveram apostar em um negócio até então dominado por médicos e homens. Com a ajuda do marido de Sandra em 1984 – Sandra tinha 32 anos e Janete, 29. “Começamos com uma recepcionista, uma coletora e uma faxineira”, diz Sandra.
Hoje, 26 anos depois, alcançaram a marca de 1 milhão de exames mensais, um faturamento anual de R$ 119 milhões, reconhecimento pela qualidade técnica de suas análises e prêmios importantes por seus métodos de gestão de pessoas. A proximidade com os 900 colaboradores – elas aboliram a palavra funcionários – é um dos triunfos da gestão, ao lado das políticas de benefícios, que levaram o Sabin a ser eleito pelo Instituto Great Places to Work (GPTW)/ Revista Época, a Melhor Empresa para a Mulher Trabalhar no Brasil, em 2008 e 2009. Os benefícios, que contemplam as pessoas em várias fases da vida, foram criados empiricamente. “Eu era mãe, estava formando família no início da vida profissional e isso pode ter influenciado”, diz Sandra. As mulheres, que sempre foram maioria, hoje compõem 72% da força de trabalho do Sabin.
Um exemplo do tipo de funcionária que faz a história da empresa é a superintendente administrativa e de recursos humanos Marly Vidal Silva Macedo. Ela cresceu junto com o Sabin: entrou quando o laboratório tinha sete anos, passou pela recepção, faturamento, digitação de laudos e área administrativa. Hoje é o braço direito de Janete. “Nosso vínculo é muito mais do que profissional, é afetivo. Ela pagou a minha matrícula da faculdade e, na minha primeira gravidez, deu o berço da minha filha”, diz Marly.
Uma pequena crise foi o empurrão para que os benefícios da empresa fossem normatizados. Em 2000, o laboratório perdeu 20 funcionários para a concorrência em um mês. Dali em diante, instituiu uma política de fidelização: quem completa um ano de Sabin tem direito a uma tarde em um spa; aos cinco anos, ganha um salário-bônus; aos dez, um computador ou laptop; aos 15, uma viagem com acompanhante; e, aos 20, um carro 0 km. Deu certo: entre 2005 e 2009, o turn-over caiu de 28% para 12% ao ano.
Falta apenas um ano para Marly ganhar o carro, mas ela nunca se viu trabalhando em outro lugar. Durante 15 anos, acompanhou sua diretora, chegando ao laboratório bem cedo, entre 6h30 e 7h. Hoje, segue o exemplo, abrindo a porta do escritório às 7h. “Gestor eficiente é aquele que demonstra o que é correto com as suas atitudes”, diz ela. Atitudes não faltaram à família de Janete Vaz, principalmente em horas de aperto. Sua avó ficou viúva aos 18 anos, quando já tinha dois filhos e estava grávida do terceiro. Mas nunca desistiu e trabalhou até os 80 anos. Seu pai pediu ao juiz a liberação de seu tutor aos 16 anos, casou-se aos 18 e, sozinho enriqueceu com fazendas e gado no estado de Goiás.
“Muitas vezes, os gurus estão dentro de casa, nos alimentando com ensinamentos”, diz Janete. “Aprendi muito com meu pai sobre administração, ética, respeito às pessoas, honestidade, humildade, garra e determinação. “Workaholic, conta que sempre foi difícil se desligar do escritório: “Chegava em casa e ia direto para o computador, continuava ligada em tudo o que acontecia no Sabin”, revela. Hoje, curtir a família, viajar e cuidar do jardim são suas válvulas de escape. Leitora compulsiva, já chegou a ler 70 títulos num ano, a maioria sobre gestão. Tem o hábito de ler o último capítulo primeiro e faz anotações ao lado de trechos que inspiram idéias ou novas estratégias. Depois, usa o sistema de correio eletrônico da empresa para divulgar o que acha interessante.
3 Pontos de Gestão para uma liderança vitoriosa:
1) Diálogo
Informação e troca de experiências chegam aos colaboradores pelo correio interno. Uma vez por mês, na Roda Viva, uma reunião com a diretoria, qualquer um deles pode fazer perguntar diretamente para as sócias do Sabin.
2) Cursos
Treinamentos e workshops são constantes no auditório do Sabin, que tem parceira com a Fundação Dom Cabral. “O líder que, em seis meses, não acrescenta uma linha ao seu currículo, está com problemas”, comenta Janete. Um auxílio-educação cobre de 25% a 80% dos custos de faculdade ou especialização.
3) Projetos Sociais
“Uma empresa só cresce quanto está envolvida com a comunidade no entorno”, acredita Sandra. O Instituto Sabin apóia o Projeto Pescar, que capacita jovens em situação de vulnerabilidade – dos 91 candidatos que fizeram o curso de auxiliar administrativo, hoje 80% estão empregados.
Energia multiplicada
Com disposição para ensinar, Janete faz questão de divulgar o case do Sabin em palestras e eventos Brasil afora. Em uma dessas ocasiões, participou de um seminário oferecido a todos os gestores (homens, vale notar) da siderurgia ArcelorMittal, no Vale do Aço, leste de Minas Gerais. “Convida-la foi ousado, pois somos uma indústria com perfil bem masculino. Mas a palestra foi tão interessante que ela foi aplaudida de pé”, conta Regina Célia de Melo, assistente técnica da área de gestão de clima: Janete ressaltou que a abertura para a conversa, a colaboração e a integração precisam ser perseguidas por todas as empresas.
Para entender o clima do Sabin, só acompanhando as duas diretoras pelos corredores do laboratório. Assim que chega, Sandra passa para dar bom-dia ao pessoal do andar inteiro, onde fica o núcleo operacional. Identifica uma aniversariante, chama-a pelo nome e a cumprimenta com alegria. Todos têm direito à comemoração, com salgadinhos e doces. “Semana passada, a nutricionista comemorou seu aniversário só com frutas. Aqui, até a festa é customizada”, brinca Sandra.
Comemorar as conquistas, sejam elas pessoais ou profissionais, é um diferencial da empresa – que, desde o início de 2010, conta com 57 unidades no Distrito Federal, uma na Bahia e duas em Goiás. E é o último pilar dos princípios que nortearam a gestão do negócio: desenvolver, desafiar, reconhecer, recompensar e comemorar. “Primeiro capacitamos os gestores e depois os desafiamos. Reconhecer eleva a autoestima e promove a realização. Os benefícios fazem parte do recompensar. Por fim, o comemorar está ligado à capacidade de celebrar as alegrias e conquistas de cada um”, explica Sandra.
Um dos seus maiores desafios foi a instalação do LabCell, tecnologia importada pela Siemens, uma esteira que permite a integração de vários equipamentos de ponta, reduzindo ao mínimo o contato manual com os frascos de material coletado. O equipamento de R$ 2,5 milhões fica no Núcleo Técnico Operacional, dentro da matriz, no Brasília Shopping – é lá que são processados os exames de todas as unidades. Nos três meses em que ocorreu a instalação, em 2008, as reuniões entre o pessoal da Siemens e o Sabin eram semanais. “Foi um momento crítico, pois a instalação não poderia alterar a rotina do laboratório. Deu para perceber que o engajamento da equipe toda no projeto é a base do sucesso do Sabin”, diz Roberto Ferrarini, CEO da Siemens Health Care Diagnósticos, que convidou Sandra para um jantar com o guru indiano da liderança Ram Charan. Foi a única mulher a dividir a mesa com colegas de laboratórios prestigiados como Fleury, Dasa e Hospital das Clínicas de São Paulo.
Negócio de família
Janete não foi a única a encontrar gurus dentro de casa. Sandra também conviveu com um exemplo vivo de empreendedorismo. Sua mãe, costureira em Inhapim, no interior de Minas Gerais, e depois em Belo Horizonte, contratou várias costureiras e montou uma microempresa dentro de casa. “Desde cedo eu ajudava. Com dez anos, pegava um ônibus para Caratinga, a cidade mais próxima, e passava o dia cumprindo a lista de compras. Escolhia linhas, botões, tecidos e administrava o dinheiro. Agradeço a minha mãe por ter me dado essa responsabilidade. E também por exigir que eu brilhasse nos estudos”, diz a empreendedora.
Natural de Inhapim, ela se mudou para Brasília por influência dos irmãos do marido. “Quando o trabalho apertava, viajava 400 quilômetros para deixar meu filho mais velho, ainda pequeno, com a avó em Minas”, conta. “Meu marido sempre meu apoiou, no laboratório e em casa”, diz Sandra. A família mora em uma espaçosa casa no Lago Sul, não longe do Clube de Golfe de Brasília, onde ela costuma dar tacadas para relaxar no fim de semana. Também se sente feliz soltando a voz em rodas de música organizadas pelos amigos. E cozinhando, claro, como boa mineira. “Nos fins de semana abrimos um vinho e ajudamos na cozinha”, diz o filho Guilherme Soares, 28 anos. Formado em publicidade, começou como estagiário e hoje é o gestor da Sabinvacinas, clínica de vacinação que montou em março de 2008, e que faz parte do grupo Sabin.
Guilherme não é o único que se prepara para a sucessão da empresa, cursando o PDD, Programa de Desenvolvimento de Dirigentes da Fundação Dom Cabral, Rafael, 22 anos, filho de Janete, é o gestor do Sabinbiotec, laboratório de biotecnologia que faz análise de alimentos, água e ar, adquirido em 2007 e transformado em novo braço do grupo. “Trabalhar neste negócio passou a ser meu objetivo”, diz o jovem empresário, que embarca em junho para a Suíça, para fazer um curso de gestão na IMD Business School. O resto da prole seguiu outros caminhos: Marcelo, 31 anos, filho de Sandra, trabalha com publicidade; Gabriel, seu irmão de 24, estuda economia na Universidade de Brasília. Pelo lado de Janete, Leandro, com 30 anos, administra um spa em parceria com a irmã, Raquel, de 28 anos.
Apostando na dedicação dos filhos e colaboradores, Janete e Sandra sonham em expandir e perpetuar o Sabin – entre as metas para 2010, está um aumento de 40% da receita. Desde 2002, são assediadas por empresários dispostos a comprar o negócio. Há alguns anos, observando outras empresas que perderam o timing da venda, Janete ficou na dúvida. Pensou: e se for esse o momento? “Decidimos que não, mas foi difícil. Hoje, vendo o resultado da nossa gestão, percebo que escolhemos o caminho certo.” Uma história engraçada sobrou dessa época. Ao ouvir o boato de que elas iriam vender o Sabin, o médico reumatologista Mário Soares, amigo de Janete, disse, incrédulo: “A Janete não vai vender. Porque o Sabin é aquele filho que nunca vai casar nem sair de casa...”.
Auto: Maggi Krause
Revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios
Maio de 2010 – nº. 256